A MENINA MAIS LINDA DO COLÉGIO

Aí eu ficava todo domingo às 11h da manhã pendurado no portão.

Esperava você passar naquele Maverick azul. Eu não entendia como ía à missa das 10h se a missa para as crianças era às 8h. Com as mãos nas grades, esperava um aceno no breve instante em que o carro diminuísse a velocidade na lombada, você virasse o rosto para o lado de minha casa e, do banco de trás do carro, me visse. Repeti durante o primário inteiro esse ritual.

Claro que você nunca olhou. Mas minha esperança não diminuiu jamais, eu com os olhos compridos e derramados para aquele lado da sala de aula ou para qualquer lado em que você estivesse. Se eu fosse fazer uma descrição talvez soasse brega e pouco original ao dizer que seus cabelos louros e longos eram como os trigais – e eram – que sua pele era aveludada – e era – e sua boca, a mais linda que eu já tinha visto, bonita como uma fruta. E era.

Por isso vou preferir dizer apenas que você era a garota mais linda do colégio. Todo colégio tem uma. E foi minha primeira namorada. Embora você nunca, nunca, nunca tenha sabido disso. Nunca.

E foi minha primeira decepção amorosa. Certo maio, numa bravata, num ato de coragem, numa ousadia desmesurada, convidei-a para ser o meu par na quadrilha da festa junina. Você já recebera, certamente, diversos convites. Mas por algum motivo, fiquei com uma séria impressão de que aceitaria. Porém, você escolheu o garoto sardento. Você sabe, aquele bonitinho e fofo que as meninas sempre adoram.

Entre a hora do recreio, às 3h30 da tarde, até a hora da saída, às 5h20, o meu mundo caiu. Desde quando tive o apêndice retirado, no ano anterior, não me sentia tão mal. Então era isso o amor, Charlie Brown. Ali estava eu, um homem de oito anos de idade, sofrendo por amor pela primeira vez.

Certa vez, por algum motivo, os pais decidiram levar você à missa das 8h. Justo a que eu freqüentava. Eu vi você chegar, acompanhada. Achei uma pena, pois sentaria junto a eles e não na parte da igreja destinada às crianças. Mas a professora de catequese, atenta, não deixou de ver aquela menina linda perdida entre os adultos e a trouxe para junto dos outros. E, ora, o único lugar vago estava justamente no banco atrás de mim.

A missa não passava porque eu esperava ansioso aquele momento em que todos se cumprimentam e desejam a “paz de Cristo” uns aos outros. Seria a primeira vez em que eu pegaria na sua mão. Depois daquilo, eu nunca mais precisaria ir à igreja. Estaria purificado, perdoado de todos os pecados, dos originais e dos copiados inclusive. Na hora, procurei agir com dissimulação. Afinal, seria estranho virar-me para trás para cumprimentá-la primeiro. Fiz-me de difícil. Primeiro apertei as mãos dos que estavam a meu lado, depois a dos que estavam à minha frente. Meu coração pulava. Parecia que era eu quem seria crucificado. Chegara a hora. Virei-me e estendi o braço.

E você estava na mesma posição, a cumprimentar os que estavam na fila de trás e, portanto, de costas para mim. Fiquei alguns segundos ali com o braço estendido, um tanto petrificado. Foi quando o padre passou para outro momento da missa e, antes que me flagrasse ali, paralisado, voltei-me para frente.

Foi você, no entanto, quem me proporcionou um dos momentos dentre aqueles de que jamais esquecerei. E, nesse quesito, acho difícil que alguém a supere.

Foi o seguinte. Briguei muito para ter o papel de Pluft, o Fantasminha, na peça de Maria Clara Machado. Afinal, seria você a Maribel, o par romântico do protagonista, se assim se pode dizer no caso de um espetáculo infantil. Não foi fácil, mas consegui, derrotando inúmeros candidatos ao personagem que, todos juntos, somavam a enorme quantidade de um, além de mim.

O fato é que, no dia da estréia, não tínhamos maquiagem. As professoras improvisaram minha cara branca com maisena. A maisena funcionava bem, com a vantagem de ter aquela textura macia ao toque. E foi por isso que você me deu alguns dos segundos mais felizes de minha vida. Havia uma falha na brancura de meu rosto, aonde a maisena não tinha chegado. Você viu e quis arrumar. Ao tocar minha pele sentiu o aveludado daquele pó que me cobria e continuou a alisar minha face sem um motivo além da simples sensação. Eu não consegui dizer nada. Acho que você falou algo como “que gostoso” ou coisa assim. Eu acho que apenas fechei os olhos, não por que não queria que a maisena me cegasse, mas por que gostaria que aquele momento não acabasse nunca mais. De fato, eu não disse nada.

Aliás, durante os quatro anos do primário eu não consegui dizer nada.

Eu sei que é tarde e é até inócuo. Nem vai fazer nenhuma diferença prática. Mas às vezes todo mundo precisa ouvir coisas bonitas. E, se por acaso, essa mensagem em uma garrafa chegar até Joice Pureza – este é o seu nome – quero que saiba que você foi o meu primeiro verdadeiro amor. E que, se possível e necessário, estas palavras lhe sirvam de alento. Ontem vi um filme e lembrei dessa época em que toda tarde eu ficava feliz por ir à escola só pelo fato de poder vê-la. Se as férias eram longas demais, o motivo era você.

Estive na casa de meus pais. Como naqueles domingos de missa, pendurei-me no mesmo portão, que hoje nem parece tão grande, e lembrei que seus cabelos louros e longos eram como os trigais, que sua pele era aveludada e sua boca, a mais linda que eu já tinha visto, bonita como uma fruta.

Fechei os olhos e, no filme que passava em minha cabeça, você me acenava de dentro de um Maverick azul.

http://www.cracatoa.com.br/a-menina-mais-linda-do-colegio/

Alessandro Martins foi jornalista em Curitiba durante 10 anos em diversos veículos da imprensa escrita, escrevendo e editando temas que iam do policial ao cultural, passando pelos esportes. Atualmente trabalha exclusivamente com a edição diária de diversos blogs pessoais. Um dos fundadores do site Cracatoa Simplesmente Sumiu, acredita nas mídias sociais como forma de divulgar trabalhos criativos de maneira abrangente, efetiva e barata.

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3 responses to “A MENINA MAIS LINDA DO COLÉGIO”

  1. Luiz Fernando Silva says :

    Texto que me fez voltar a minha cidade natal, no interior de Minas, nos anos 60. Acho que a grande maioria dos homens de hoje, viveram, naquela epoca, uma historia muito semelhante à sua. Que saudades gostosa!!!!!! Viveria-a de novo, mas seria mais ousado para vivencia-la integral e intensamente.

  2. Tereza Jardim says :

    E quem não viveu um amor tão puro e simples assim, né?

  3. Steffany says :

    Mano sou d ariquemes apesar q ta fera essa historia muto bommmmm. Bjã ERLAINY STEFFANY ligado intão thauuu.

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