PARTE II – O LAMENTO

CENA 05 – MINHA AVÓ

ELA: A memória mais vívida da minha infância é da casa da minha avó. Nós costumávamos vir pra cá umas duas ou três vezes por ano, fora festas de fim de ano. Eu devia ter uns dez anos, sei lá… foi antes do meu pai adoecer. Se bem que eu acho que meu pai começou a adoecer muitos anos antes. O coração dele começou a parar muito antes de eu nascer. O coração dele começou a parar de bater quando a minha mãe colocou duas pedras de gelo num copo e serviu a primeira dose de vodka. O coração dele começou a parar de bater quando os sonhos todos que ele tinha começaram a naufragar. E quando eu nasci o coração dele parou mais um pouco. Quando eu nasci houve uma desistência completa. Um ressentimento final. Um mar de impossibilidades. Então o coração dele, quando engravidou a minha mãe, já estava parando de bater há muito. Mas começou a anunciar sua parada junto com a minha chegada. Por isso o meu coração já nasceu parando. E o meu maior esforço sempre foi este. Acelerar um coração quase parando herdado do meu pai.

Mas o que eu queria falar era outra coisa. Outra coisa. Eu queria falar da minha avó, da casa da minha avó e não do coração náufrago do meu pai. Eu queria falar de outro tempo. Quando todas as coisas ao menos pareciam ser menos complicadas. Quando as pessoas se davam ao trabalho de fingir. Talvez eu tenha sido feliz nestes dias.

Eu lembro da minha vó, sentada na varanda, conversando com os passarinhos e com as abelhas. A família inteira com alergia mortal ás abelhas e minha avó, ao invés de tocar elas pra fora de casa ou matar, sei lá, ela ficava pedindo pra cada uma delas ir embora. E não é que elas iam? As galinhas também obedeciam minha vó. Eu nunca vi, mas ela jurava que tinha uma que dançava quando ela pedia. E os passarinhos… nossa, os passarinhos! Ela passava horas batendo papo com eles. Falando da vida e perguntando coisas. E eles respondiam, com seus assovios agudinhos. Minha vó, parecendo já uma aranhinha cansada, conversando com os passarinhos. Foi a última vez que eu tive notícia do que poderia ser o amor.

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